Na Europa Latina Super Desenvolvida

30/10/2009

Apesar de toda rixa que existe entre brasileiros e argentinos, o que eu posso dizer é que os argentinos não são tão maus assim. Os argentinos, em geral. Mas os portenhos, aaaah… os por-te-nhos.

forse-dio-e-malatoQuarta-feira, vi um maravilhoso documentário. Ops… Filme (Como o diretor, Franco Brogi Taviani, queria que chamassem). Uma mistura de ficção com linguagem documental, intitulado “Quizá Dios está Enfermo”, todo passado na África. Uma poesia visual, como Taviani – que estava presente na projeção – havia alertado, sem qualquer modéstia. Muito bom, mas de verdade o que foi mais excepcional para mim foi o que veio depois da exibição do filme: os comentários portenhos.

Por falar da extrema pobreza da África, eu já esperava comentários nada cinematográficos de sociólogos, historiadores e outros chatos profissionais, das mais diversas áreas, que estivessem presentes.  É a regra do mundo. Todo mundo é um especialista em potencial para falar de cinema. Tudo bem, acho bonita esta democracia. Mas se tem portenhos na sala… A coisa muda de figura.

Termina o filme. Acendem-se as luzes. O diretor vai para frente da platéia para responder – em italiano – perguntas sobre a produção, e fica pertinho de mim, que estava na segunda fila. Tamanha proximidade fez com que as primeiras perguntas viessem de pessoas muito próximas a mim, e sem dú-vi-da, foram incríveis. No sentido literal da palavra.

 A primeira pérola da noite veio no formato tradicional pergunta que na verdade é uma afirmação: “Eu gostaria de saber se os africanos tem consciência de que toda a pobreza e desigualdade social ali é causada pelas guerrilhas?”. Silêncio. O diretor, em um ato de diplomacia, responde que não sabe e que este não era o tema de seu filme. Explica que seu objetivo era falar do sofrimento daquelas pessoas, não tentar explicar as razões.

Entretanto, para dar aquela continuidade ao debate exclusivamente sobre o filme, veio do fundo o comentário: “eu gostaria de comentar que os problemas sociais da África não vieram só com a Guerrilha. Eu não sou uma especialista, mas eu sei que não é só isso”.

“Grande erro, minha senhora”, pensei. Ela assumiu sua debilidade, assim, em público, cercada de pseudo-intelectuais. O resultado não poderia ser outro: “Eu sim, sou um especialista, e estudei profundamente os problemas da África e posso afirmar com segurança que os problemas são causados pela guerrilha”, declara o simpático senhor que introduziu o assunto.

Nesta hora, o representante do cineclub que servia como mediador (e tradutor, mas de tanto ser corrigido pelo diretor, desistiu da função) quis mostrar a que veio e decidiu interferir para que a discussão não ficasse ali, naquele ponto, suuuuuper contundente com o tema. “Então… Na parte em que as pessoas falavam em português… O que recordou a vocês?” A pergunta era besta, mas considerando o tom emergencial, era compreensivo que não saísse nada elaborado. Mas, néam… Era uma sala cheia de portenhos e isto exigia que cada passo fosse melhor premeditado. Como não foi…

“Lembrou o Brasil… Óbvio… Igual”, comenta a elegante senhora sentada ao meu lado. Rapidamente, eu olho para ela com minha mirada fatal. 30 segundos de choque. Explicação: o que ela dizia que era “tal, cual”… era a parte em que se mostrava um abrigo para menores expulsos de suas casas, porque a família os acusava de serem FEITICEIROS. Para serem novamente aceitos, a instituição fazia um ritual para “tirar o feitiço” da criança e promover a reconciliação com os familiares. Tal qual fazemos no Brasil. Coff coff… Já passei várias vezes pelo mesmo ritual… ¬¬ 

O que ela quis dizer foi “crianças pobres e negras, como é en Ciudad de Dios no Brasil”. Mas enfim… ela escolheu o momento equivocado para demonstrar seus vastos conhecimentos antropológicos. Eu ainda tentei relevar: “Ela é uma portenha ‘cheta’ (burguesa). Não dava para esperar muito”. O mediador provavelmente pensou o mesmo, porque a escutou, mas fingiu que não.

Então… o diretor comenta que não existe negros na Argentina. Eu esperei o comentário de alguém na platéia que dissesse “isto é só em Buenos Aires. A melanina está mais ao Norte”. Maaaaaaaas minha amiga antropóloga, revelando também seu profundo conhecimento em História, foi muito mais rápida e explicou: “Eles foram mortos na Guerra do Paraguai.” Ou provavelmente, foram para o Brasil, onde se sentiam à vontade com seus costumes tribais, não? E eu juro… Ela não ficou por aí.

O atual projeto do diretor é um documentário sobre a vida dos imigrantes italianos na Argentina. Ele contou que o projeto surgiu devido à quantidade enorme de imigrantes que ele encontrou por aqui, e quis trabalhar como era a questão com os italianos. Minha amiga antropóloga-historiadora-politicamente-correta PRECISAVA comentar algo a respeito: “Siiiim… Aqui na Argentina nós temos uma política de facilitar entrada de estrangeiros. Não impomos nenhuma dificuldade e é por isto que temos tantos imigrantes do Peru, Bolívia, e outros países pobres vizinhos.”

 Eu a olho, perguntando-me de onde vinha tanta inspiração. O diretor fica em silêncio por um segundo, provavelmente filtrando sua resposta. “Mas a Argentina está passando por uma crise, minha senhora”, ele a avisa em italiano. Ela coloca uma expressão no rosto de “oh god!”, mas tenta não sair por baixo: “sim… sim… Mas…” E este, ainda não foi o fim. Agora ela precisava mostrar que não era apenas uma cheta alienada e sim, uma cientista social: “Eu gostaria de saber, como foi a reação do público europeu com seu filme, ao ver tamanha pobreza em países que são ex-colônias. Mas assim. Eu quero saber a reação das pessoas comuns, não dos intelectuais…”  A pergunta era uma pérola em si. Ela não queria a opinião dos intelectuais, porque esta, ela já conhecia muito bem. Era a dela, “tal, cual”. Qual a reação do público ex-colonizador-imperialista¿ Bom… provavelmente, é a mesma de que quando eles vem a pobreza em outros países que também foram explorados como o Brasil… o Peru… a Bolívia… e inclusive, a Argentina… Tal, cual.

Enfim… No capítulo de hoje, queridos amiguinhos, nós aprendemos que: Cinefilia é uma doença que de fato dá na maioria dos portenhos… Mas que cinema é sempre melhor quando eles não estão por perto.
mas nao tem argentino

** Beijos especiais a todos os queridos amigos portenhos…

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2 comentarios to “Na Europa Latina Super Desenvolvida”

  1. Mário said

    Morri.

  2. Tham said

    morri²
    !!!

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